Depois de acuradas e abalizadas consultas aos meus 317 advogados e ao Departamento Jurídico desta emissora, inferi que roubar um morto não deve dar cadeia. Por isso, começo estes rabiscos furtando o menino Raul Seixas. Seguinte é este: eu devia estar contente porque tenho um emprego, sou razoavelmente respeitado e finalmente ficou definido (espero que de uma vez por todas) que o Itinga Futebol Clube não vai jogar no Santuário Ecológico Manoel Barradas. Mas, ouvintes, em verdade vos confesso abestalhado que estou decepcionado. Os lances desta tenebrosa transação são sórdidos demais para permitir qualquer tipo de felicidade ou satisfação.
Como caldo de galinha e um pouco de história não fazem mal a ninguém, vamos aos fatos.
Crianças, talvez vocês não se lembrem, mas eu, que nasci há cerca de dezmilanos, jamais esqueço que esta chibança começou logo após a Tragédia na velha Fonte Nova. Em entrevista ao meu amigo Cláudio Leal, publicada no Terra Magazine no dia 29 de novembro, o presidente do Vitória Jorge Sampaio disse que estava “completamente aberto para a discussão e para ajudar”.
Diante dos graves acontecimentos de então, a iniciativa parecia-me, digamos assim, nobre. E, apesar de não concordar com a oferta, silenciei. O mesmo e ensurdecedor mutismo foi a resposta dos dirigentes do finado. E, quando dois não se falam, não há motivo para estabelecer diálogo. Ponto final.
Ponto final, uma ova. A partir de então, prevaleceram as reticências – estes ordinários três pontinhos que dão margem às mais variadas e malandras interpretações. Assim, as conversas enviesadas e intermináveis começaram a brotar sem cessar.
Para não alongar esta prosa ruim e não cansar mais ainda os poucos e impacientes ouvintes, abdicarei de relatar novamente aqui a dança de rato promovida pelo Governo do Estado. Sobre tal patifaria já tratei aqui, ALI e acolá.
Neste instante, portanto, apresento meus two cents apenas sobre a atuação bizarra, reticente (olha ela aí novamente!) e humilhante dos dirigentes do Rubro-Negro.
Amigos, a verdade é uma só: o Conselho Deliberativo do Vitória (aí incluídos Jorge Sampaio e Alexi Portela) agiu de forma, no mínimo, indecente e indigna para com a apaixonada torcida.
Aos fatos.
Primeiro, Jorge Sampaio afirma em entrevista ao Jornal A Tarde no dia 26 de agosto que há uma proposta da Petrobras para que o Itinga Futebol Clube joque no Barradão. E informa que, tristemente, a maioria parece estar a favor.
Ato contínuo, Alexi Portela publica uma nota afirmando que não é bem assim, que não sei o quê e etc e coisa e tals e reticências. Porém, no item quatro do referido texto, deixa transparecer o que realmente existe. Ouçam.
4) As partes entendem que a cessão do estádio para alguns jogos da Série B em 2008 valorizaria essa ação promocional e serviria como fator motivador para aprovação do projeto.
Em seguida, a Petrobras também desmente que queira investir diretamente no Vitória.
Poucos dias depois, Alexi Portela convoca o Conselho Deliberativo e nem cita a questão da Petrobras e do aluguel do Barradão ao finado.
Porém, na reunião, o tema principal é justamente este. E, conforme apurei, ocorreu muita pressão. O vereador Silvoney Sales, inclusive, mandou marcar os nomes de quem estava contra a doação, numa forma clara de chantagem. O presidente Jorge Sampaio, que dissera ser contra, também vota a favor. Apenas quatro conselheiros agem de forma honrada.
O torcedor Rubro-Negro, porém, rejeita o nariz de palhaço. E protesta de forma intrasigente. Surpresos com a reação, os canalhocratas afirmam que não é bem assim, que não sei o quê e etc e coisa e tals e reticências.
A diretoria do Itinga faz beicinho. A Petrobras diz que o negócio (quase escrevi negociata) independe do defunto. Mas, estranhamente, lança nova nota pública informando que a empresa espera o desfecho entre as partes. Que partes, cara pálida?
E a chibança tem novo e asqueroso capítulo sob a intermediação da Federação Bahiana de Futebol. Depois de um dia inteiro de promíscuas atividades, a Diretoria do Vitória abre as pernas. Os dirigentes do Itinga fazem doce e, de modo humilhante, recusam a doação.
Deste caldo contaminado, parece (eu disse parece) resultar que não haverá a doação do Santuário.
Eis o triste enredo de uma ordinária novela que envolveu chantagem, uso da máquina pública para beneficiar entidades privadas e até envolvimento de uma poderosa e multinacional estatal.
Pois muito bem. Apesar do péssimo roteiro, dos atores canastrões e de outras mumunhas mais, não podemos nunca esquecer esta história – até mesmo para que ela não se repita mais adiante como farsa.
Boas noites –se é que é possível dormir com um barulho desse.