Faz-se mister, de quando em vez, deixar a graça de lado. E ontem foi um destes dias. Logo cedo, após acordar com o psicológico abalado, decidi chutar as piadinhas para o escanteio e optei pela compenetração. Aliás, minto. Na verdade, deixei a emoção falar mais alto, com aquela ansiedade típica de criança que vai viajar e um nervosismo maior do que casal de namorado que ainda não deu o primeiro beijo. Um alvoroço dos seiscentos!
Alguns incautos podem até achar que estou sendo hiperbólico. Outros, maldosos, ao verem este linguajar emotivamente derramado, já insinuam que este masculinástico locutor se androginou, tal e qual aquele camarada da canção de Benito de Paula Luiz Ayrão (valeu, Anrafel) . Mas, eu digo nécaras.
E digo nécaras, afinal, porque havia um motivo de força maior para esta minha variação de humor e de estado emocional. Ei-lo: exatamente às 20h30 iríamos enfrentar a temível equipe do Colo-Colo no Estádio Mário Pessoa, em Ilhéus.
Para os que ainda acham que faço drama ou graça, eis alguns informes tenebrosos: o último triunfo do brioso Rubro-Negro naquela praça esportiva datava de 2003, o que, segundo a matemática moderna, dá exatamente seis anos de jejum. Não bastasse isso, rondava no ar o espectro da TRAGÉDIA de 2006, quando perdemos a chance do inédito PENTA em duas partidas de virada e levando quatro gols.
Some-se a isto mais duas fantasmagóricas coincidências: o retorno do carrasco Ednei e do lateral direito (ala é a puta que o pariu!) Alex Santos à destemida equipe ilheense. E os dois estavam com gosto de sangue na boca. O primeiro, porque foi provocado bisonhamente por nosso comandante Mancini, que disse não saber se o tal atacante “era branco, negro ou japonês”. Já o outro, porque pertence ao Vitória, mas novamente foi enjeitado, igualmente como aconteceu em 2006.
Mas, isto são só prolegômenos. O pior vem agora. Ligo a TV e ouço a voz fanhosa e os comentários imbecilizados de Raimundo Varela. Logo em seguida, entra em campo o árbitro Arilson da Anunciação num modelito mais apertado do que aquele que trajava a MOÇA GERASAMBA. Penso com meus paranóicos botões: Fudeu Maria preá.
E as piores previsões parecem que vão se concretizar. Menos de cinco minutos de bola rolando e Alex “Macaco” Santos cai pela lateral direita (ala, repito, é a puta que o pariu) fazendo mais estripulias do que chipanzé em zoológico. E dribla, e chuta e deixa minha zaga completamente atordoada. Alguns minutos depois e o juiz mostra que, apesar de não entender de indumentária, conhece outras artes, como por exemplo a do furto qualificado. E ignora um pênalti claro, e depois outro. Só não desligo a TV porque sou um homem de fé e também porque tenho boa potência na voz. Assim, grito para Jackson: Chuta a porra da bola, carajo. E ele dispara um torpedo de fora da área, furando a rede e as porra. Depois oriento Washington, que também manda uma para o barbante.
Mas, com apenas 2 x 0 no placar, o filha da puta do juiz inventa de dar três infindáveis minutos de acréscimo. Para sorte dele (juro que ia dar uma surra de cansanção no sacana quando ele voltasse a Salvador) e de minhas 12 pontes de safena, nada de mal acontece. E aqui estou são e salvo para discorrer sobre os aspectos táticos da peleja.Aliás, melhor não. O telefone tá caro, já falei muito e o nível técnico das duas equipes ontem não merece mais nem uma linha. Ademais (recebam, sacanas, um ademais no parágrafo final) preciso fazer uns gargarejos para orientar a equipe contra a poderosa agremiação de Vitória da Conquista no próximo domingo.
Umbora Bitória, carajo!